terça-feira, 6 de abril de 2010

KARL POPPER - BUSCA INACABADA



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Nunca te deixes levar a tomar a sério os problemas acerca de palavras e seus significados. O que deve ser tomado a sério são questões de facto e afirmações sobre factos: teorias e hipóteses; os problemas que resolvem; e os problemas que levantam.
Isso é o caminho mais seguro para a perdição: o abandono dos problemas reais a bem dos problemas verbais.

[ver gráfico na pg. 37]

Toda a boa tradução é uma interpretação do texto original; e iria mesmo até dizer que toda a boa tradução de um texto não trivial tem de ser uma reconstrução teórica.

Tanto a precisão como a certeza são falsos ideais. A demanda da precisão é análoga à demanda da certeza, e ambas deveriam ser abandonadas.

É sempre indesejável fazer um esforço para aumentar a precisão por si mesma - em especial a precisão linguística - dado que isso leva normalmente a uma perda de clareza e a um desperdício de tempo e esforço em preliminares que frequentemente se revelam inúteis, porque são ultrapassados pelo desenvolvimento real do assunto: nunca se deveria tentar ser mais preciso do que a situação problemática exige.

Todo o aumento de clareza tem valor intelectual em si mesmo; um aumento de precisão ou exactidão tem apenas um valor pragmático como meio para um determinado fim.

Conteúdo lógico - a classe de todas as consequências que podem ser derivadas do enunciado da teoria.

Conteúdo informativo - "o poder assertivo de um enunciado consiste em que ele exclui certos casos possíveis." [o conteúdo informativo de uma teoria é o conjunto dos enunciados que são incompatíveis com a teoria. - o seu "conteúdo empírico"]

Dado que E pertence ao conteúdo informativo de de N, não-E pertence ao conteúdo lógico de N:não-E é implicada por N, um facto que, obviamente, não podia ser conhecido, de qualquer pessoa, antes de E ser descoberta.

Se quisermos compreender melhor uma teoria, o que temos de fazer primeiro é descobrir a sua relação lógica com esses problemas e terias existentes que constituem o que podemos chamar a "situação problemática" nesse instante particular do tempo.

A busca de precisão, em palavras ou conceitos ou significados, é uma empresa vã. Não há, simplesmente, essa coisa que seria um conceito preciso (sem ambiguidade) embora conceitos como "preço de cafeteira" e "trinta cêntimos" sejam em geral suficientemente precisos para o contexto do problema em que são usados. (Mas note-se o facto de que "trinta cêntimos" é, como conceito social ou económico, altamente variável: tinha há alguns anos uma significância totalmente diferente da que tem hoje.)

"Podemos dizer: o conceito deve ter uma fronteira nítida." Mas é claro que para este tipo de precisão absoluta ser pedido a um conceito definido, deve primeiro ser pedido aos conceitos definidores e, em ultima análise, aos nossos termos indefinidos ou primitivos. Todavia, isso é impossível.

Não tente antecipadamente tornar mais precisos os seus conceitos ou formulações na esperança simplória de que isso o munirá de um arsenal para uso futuro para lidar com problemas que ainda não surgiram. Podem nunca surgir; a evolução da teoria pode ultrapassar todos os seus esforços. As armas intelectuais que serão necessárias numa data posterior podem ser muito diferentes das que qualquer outra pessoa tem armazenadas.

O método ad hoc de lidar com problemas de clareza ou de precisão à medida que vai sendo necessário pode ser chamado "diálise", para o distinguir de análise, ou seja, da ideia de que a análise da linguagem como tal pode resolver problemas, ou criar armamento futuro. A diálise não pode resolver problemas. Os problemas só podem ser resolvidos com a ajuda de novas ideias. Mas os nossos problemas podem por vezes pedir que façamos novas distinções - ad hoc, para o fim em vista.


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A teoria marxista exige que a luta de classes seja intensificada, com o objectivo de acelerar a vinda do socialismo. As suas teses são que, embora a revolução possa reclamar algumas vítimas, o capitalismo está a reclamar mais vítimas do que a totalidade da revolução socialista.

Não só tinha aceite uma teoria complexa de maneira pouco acrítica, mas tinha também percebido um bom bocado do que estava errado, tanto na teoria como na prática do comunismo. Uma vez que tenha sacrificado a sua consciência intelectual em relação a um ponto pouco importante, um indivíduo não quer ceder com demasiada facilidade; o indivíduo deseja justificar o auto-sacrifício convencendo-se da bondade fundamental da causa, que é vista como pesando mais do que qualquer outro pequeno compromisso moral ou intelectual que possa ser requerido. Com cada um desses sacrifícios morais ou intelectuais, o indivíduo fica cada vez mais profundamente envolvido, fica pronto a apoiar os seus investimentos morais ou intelectuais na causa com mais investimentos. É como estar pronto para investir mais dinheiro para cobrir as perdas.

O núcleo do argumento marxiano (...) Consiste numa profecia histórica, combinada com um apelo implícito à seguinte lei moral: Ajuda a que ocorra o inevitável!

Um socialismo combinado com a liberdade individual (...) não sendo mais que um lindo sonho, a reconhecer que a tentativa para realizar a igualdade põe em perigo a liberdade e que, se a liberdade se perde, nem sequer entre os não livres haverá igualdade.


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(...)
(d) Segundo Marx, as alterações revolucionárias começam na base, por assim dizer: os meios de produção primeiro, depois as condições sociais de produção, em seguida o poder político e, por fim, as crenças ideológicas, que são as últimas a mudar. Mas na Revolução Russa, o poder político mudou primeiro e só depois a ideologia (Ditadura mais Electrificação) começou por mudar as condições sociais e os meios de produção a partir do topo. A reinterpretação da teoria da revolução de Marx, para escapar a esta falsificação, imunizou-a contra ataques futuros, transformando-a na teoria marxista vulgar (ou socioanalítica) que nos diz que as "motivações económicas" e a luta de classes impregnam toda a vida social.


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(...)


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O dogma fornece-nos um quadro de coordenadas para explorar a ordem desde mundo desconhecido e um pouco caótico em si mesmo, e também para criar ordem onde a ordem está ausente. Assim que encontrámos, ou erguemos, alguns marcos de referência, prosseguimos pela tentativa de experimentar novas maneiras de ordenar o mundo, novas coordenadas, novos modos de exploração e criação.

Uma grande grande teoria científica é um cosmos imposto ao caos.

"O nosso intelecto não deriva as suas leis da natureza, mas impõe as suas leis à natureza". Mas embora tenhamos, a princípio, de nos agarrar às nossas teorias, podemos tentar substituí-las por qualquer coisa melhor se tivermos aprendido, com a sua ajuda, onde elas nos deixam ficar mal. Assim, pode sobreviver uma fase científica ou crítica de reflexão, que é necessariamente precedida por uma fase não crítica.

As nossas teorias são as nossas invenções; com elas criamos um mundo: não o mundo real, mas as nossas próprias redes, em que tentamos capturar o mundo real.


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Para meu pensamento, o contraste entre uma abordagem, ou atitude, objectiva e outra subjectiva, em especial em relação com a própria obra de um indivíduo, tornou-se decisivo.

(O meu ponto de vista anti-essencialista implica que perguntas do tipo que é?, nunca são problemas genuínos.)
A teoria expressionista da arte é vazia. Todas as coisas que um homem ou um animal podem fazer são (entre outras coisas) uma expressão de um estado interno, de emoções e de uma personalidade.

Tentar seriamente ser original ou diferente, e tentar também expremir a sua própria personalidade, tem de interferir com o que foi chamado a "integridade" da obra de arte. Numa grande obra de arte, o artista não tenta impor à obra as suas pequenas ambições pessoais, mas usa-as para servir a sua obra.

Por tentativa e erro, o crescimento da obra dependerá do esforço, da sensibilidade ao trabalho de outros e da autocrítica.

Se adoptarmos a teoria da inspiração [divina] e do frenesim, mas deitarmos fora a sua origem divina, chegamos imediatamente à moderna teoria (...) uma espécie de teologia sem Deus - com a essência do artista a tomar o lugar dos deuses [auto-inspiração].

A função realmente interessante das emoções é que elas possam ser usadas para testar o sucesso ou a adequação ou o impacto da obra (objectiva): e pode modificar ou reescrever a sua composição quando insatisfeito com a reação; ou até abandoná-la completamente.

A teoria de Platão, na sua forma não teológica, dificilmente é compatível com uma teoria objectivista que vê a sinceridade da obra no resultado da autocrítica do artista. Todavia tornou-se parte da tradição clássica da teoria retórica e poética (...) ao ponto de sugerir que uma descrição ou representação bem-sucedida das emoções dependia da profundidade das emoções de que o artista era capaz de sentir.
Só o artista que primeiro sofreu é capaz de julgar críticamente o impacto da sua obra.
(...)

O resultado pode ser comovente; mas a nossa apreciação pode ser baseada no sentido de adequação. Similarmente, a tarefa põe um problema defenido; e o problema pode ser tornado mais específico através da exigência de se enquadrar "numa certa suite meio completada".
[ Ver o músico como estando a lutar para resolver problemas musicais é muito diferente de vê-lo como empenhado na expressão das suas emoções.*]


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Entusiasmados com o estudo embora cépticos quanto às teorias da educação - teorias importadas principalmente da América (John Dewey) e da Alemanha (Georg Kerschensteiner) - [pela] experiência com crianças abandonadas.

[ Karl Buhler ] (...) teoria dos três níveis ou funções da linguagem: a função expressiva, a função de sinal ou apelativa e, num nível mais alto, a função descritiva. As duas funções inferiores eram comuns às linguagens humana e animal e estavam sempre presentes, ao passo que a terceira função era caractrística da linguagem humana e, por vezes (como nas exclamações), ausente mesmo desta.

Levou à conclusão de que a teoria da arte como "comunicação" (ou seja, apelo)* era igualmente vazia, dado que essas duas funções estavam virtualmente presentes em todas as linguagens, até nas linguagens animais. (...) A função argumentativa da linguagem tornou-se particularmente importante porque a via como a base de todo o pensamento crítico.

(...)

[ Psicologia do conhecimento ou da descoberta ]

(...) enfatizar o meu realismo, a minha convicção de que existe um mundo real e que o problema do conhecimento é o problema de como descobrir esse mundo. Se queremos argumentar sobre ele, não podemos partir das nossas experiências dos sentidos (ou mesmo dos nossos sentimentos) sem cair nas armadilhas do psicologismo, idealismo, positivismo, fenomenalismo, ou mesmo solipsismo - que me recusava a levar a sério.

Os dados dos sentidos, as ideias ou impressões "simples" e outras eram fictícias - baseadas em tentativas erradas de transferir o atomismo (ou a lógica aristotélica) da física para a psicologia.

Não pensamos por imagens mas em termos de problemas e das tentativas de lhes encontrar soluções.

A psicologia associativa - a psicologia de Locke, Berkeley e Hume - era meramente uma tradução em termos psicológicos da lógica de sujeito-perdicado aristotélica.

É incrível que alguém a confunda com psicologia émpirica.

Na Lógica de Kulpe, os argumentos eram vistos como juízos complexos (o que é um erro do ponto de vista da lógica moderna). Em consequência, não poderia existir verdadeiramente distinção entre julgar e argumentar. A função descritiva da linguagem (que correspondia aos "juízos") e a função argumentativa eram a mesma.
[ (...) distinguir entre uma inferência (implicação lógica) e um enunciado condicional (implicação material). Uma inferência era um conjunto ordenado de enunciados. ]

A função expressiva de Buhler podia ser separada da função comunicativa (ou função apelativa) porque um animal ou um homem pode expremir-se mesmo quando não existe nenhum "receptor" para ser estimulado. As funções expressiva e comunicativa podiam ser distinguidas da função descritiva de Buhler porque um animal ou um homem pode comunicar medo (por exemplo) sem descrever o objecto receado. A função descritiva (exclusiva do homem) era, então, claramente discernível da função argumentativa, dado que existem linguagens, como os mapas, que são descritivas mas não argumentativas. (Isto, já agora, faz da analogia entre mapas e teorias científicas uma analogia particularmente infeliz. As teorias são essencialmente sistemas argumentativos de enunciados: o seu ponto principal é que explicam dedutivamente. Os mapas são não-argumentativos. É claro que todas as teorias são também descritivas, como um mapa - tal como são, à semelhança de toda a linguagem descritiva, comunicativas, dado que impelem as pessoas à acção; e também expressivas, porque são sintomas do "estado" do comunicador.) Portanto, havia um segundo caso em que um erro de lógica levava a um erro da psicologia; neste caso particular, a psicologia das disposições linguísticas e das necessidades biológicas inatas que subjazem aos usos e realizações da linguagem humana.

Tudo isto mostrou a prioridade do estudo da lógica em relação ao estudo dos processos subjectivos do pensar. (...) vim a compreender que a teoria do reflexo condicionado estava errada. Os cães de Pavlov têm de ser interpretados como procurando invariantes no campo da aquisição de comida (um campo que é aberto à exploração por tentativa e erro) e como fabricando expectativas, ou previsões, de acontecimentos iminentes. Pode chamar-se "condicionamento" a isto; mas não é um reflexo formado como resultado de um processo de aprendizagem, é uma descoberta (talvez errada) do que se deve prever.
[ Konrad Lorenz, Evolution and Modification of Behavior: "... a modificabilidade só ocorre... onde os mecanismos de aprendizagem inatos são filogeneticamente programados para executar justamente essa função." (...) Pode enunciar-se a prncipal diferença entre psicologia associativa ou a teoria do reflexo condicionado, por um lado, e a descuberta por tentativa e erro, por outro, dizendo que a primeira é essencialmente lamarckiana (ou "instritiva") e a última essencialmente darwiniana (ou "selectiva"). ]


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